amém

escrito, reescrito mil vezes e enfim publicado por Yolanda



Promessas, ainda bem que vocês estão bem longe daqui – porque vocês estariam decepcionadas, decepcionadas pra caramba.

E eu já não consigo mais pensar daquela maneira. Não sei o que aconteceu comigo. Virei do avesso, parece. Ou fui eu quem me desvirei e na verdade estou do lado certo? Porque agora só consigo ver as coisas com olhos de criança. Aquela criança que prestava atenção em cada detalhe, que fazia histórias com as ilustrações bonitas dos livros. Não era pra ser desse jeito. Tô caminhando pra trás, tô ao contrário. Sou a única pessoa do metrô subindo as escadas. A multidão vem em minha direção, apressada, e eu a enfrento. Porque eu não posso mais ser derrubada – eu já estou derrubada. E deixa eu te falar: não é uma sensação tão ruim assim, estar derrubada. Dá uma liberdade. Uma vontade de sair por aí olhando as pessoas nos olhos. Essas coisas.

– É você?

Um antigo colega de escola. Nem lembrava o meu nome, mas a curiosidade de bisbilhotar a vida alheia era maior. É isso que a escola nos ensina, afinal.

–Nossa, o que aconteceu com você? Por que você tá assim?

E eu querendo subir as escadas, e eu querendo que ele descesse... Mas não. Empacamos o fluxo daquelas formiguinhas de terno.

– Tá cheirando mal, tá tonta... – ele explicou, pensando que eu não estivesse consciente da minha aparência no momento. – Que aconteceu?

– Perdi o emprego – falei. Voz tranqüila, cara de não-fui-eu: já estava treinando pra contar pra mãe.

– O de abril?

– É.

– E o cursinho?

– Sei lá.

– Sei lá o que?

Um senhor ao nosso lado resmungou alguma coisa sobre pessoas folgadas. Disse que era um absurdo, que eram seis da matina, onde já se viu gente que... Mas a pressa impediu o resto da frase chegar aos meus ouvidos: ela morreu enquanto o senhor continuou o seu caminho para o subsolo.

– Hein? Sei lá o que?

– Eu quis dizer que eu não sei o que vou fazer com o cursinho.

– Você quer continuar?

– Não.

– Então...?

– O cursinho é só a minha fila de espera. A sala de visitas de um mundo que eu não quero. Vai, me chama de folgada também porque eu mereço; sei que mereço, mas não consigo deixar de merecer. Só sei que estar ali é um desespero. Dá pra sentir no ar o desespero contido de toda aquela gente. Muitas vezes parece que estão compenetradas, atentas, conscientes, mas estão desesperadas. Pegam a senha e olham pro visor ano após ano. O seu número não aparece? Pega outra senha, pega outra fila: aí vem mais um ano. É que aqui nessa terra tem fila pra tudo: fila pra comprar, fila pra pagar, fila pra ir ao banheiro e fila pra viver. Você não pode viver enquanto não pegar toda aquela fila. Vai se acostumando.

Olhou com cara de quem não tinha entendido. Talvez não tivesse nem escutado. Ninguém dá moral pruma bêbada.

– Já tem alguma entrevista?

– Não. Ainda nem procurei nada.

– E o que cê tava fazendo por aí de madrugada?

– Que que tem?

– Você tá péssima...

– Estava vivendo. Só isso.

– Que bosta. Acha que beber é viver?

– É. É a única coisa que a gente tem pra viver. Também tem fila, mas é mais rápida. Tchau.

Subi o resto dos degraus e saí da estação. O dia estava nascendo. Olhei pro céu daquele mundo que queria me bater e dei risada. Dei risada porque sabia que as palmadinhas da burguesia (precedidas por anestesia e finalizadas com pomada!) não se comparavam aos socos e chutes do resto das gentes. O mendigo no banco sabia disso. Ele sabia que um dia eu sonhei poder ajudar aqueles como ele, mas que o conforto e a dor das minhas palmadinhas não me deixaram levar o sonho adiante. Ele sabia. Deu risada também. Juntos nós abrimos uma nova garrafa, porque essa era a única maneira de vivermos – a dele, porque era a única que tinha; a minha, porque escolhi. Um brinde às garrafas, às filas, e amém.

A minha estação tinha chegado. Era hora de descer. Não queria ir, mas também não queria voltar, subir as escadas do metrô e ser aquela menina. A verdade é que eu me queria de volta. Queria os sonhos de volta, as promessas de volta. Não importa o quão decepcionadas elas estivessem quando voltassem: queria que elas me olhassem nos olhos e tacassem na minha cara todas as verdades desse mundo, aquelas que eu fingia não ver. Que a vida não é fácil mesmo, mas que eu tenho anestesia e pomada de sobra para apanhar. Eu posso fazer isso. Eu posso ir. Eu posso sonhar e viver. Eu posso ser eu de novo.

Um brinde às pomadas, às anestesias, e amém.


panapaná

escrito, reescrito mil vezes e enfim publicado por Yolanda



Já disse que não quero o copo de água na beira da pia. Eles não só deixam o copo, como também a cartela. Como se eu quisesse. Como se eu precisasse. Como se eu pudesse esquecer. Eu deveria, sei que deveria – os papéis com horários rabiscados estão espalhados pela casa, dizendo esqueça, esqueça, caramba!, esqueça porque eu estou aqui pra te lembrar! É assim que funciona a burocracia das doenças: papéis, papéis e mais papéis que estão ali para te avisar do seu inimigo invisível. É um período de dias, semanas ou meses, nos casos mais sérios; um período em que você tenta seguir a rotina para se distrair; espalha os horários pela casa para não precisar se lembrar; deixa o copo de água na beira da pia do banheiro. A água torna o terrível um pouco menos terrível. Só um empurrãozinho naquele corpo estranho que adentra o seu próprio corpo estranho. Só um empurrãozinho. Só uma mentirinha. Que mal que faz? É um copo de água, ele vai te ajudar. Ele vai te ajudar, querida. Vai ficar tudo bem, querida. Boa noite, querida. Então eles me deixam sozinha no banheiro, eu e o copo de água, eu e a cartela... E eu percebo: pra que? Pra que ajuda? Pra que empurrãozinho, mentirinha? O comprimido desce pela minha garganta seco e cru, e eu percebo – percebo de verdade – que é assim que as coisas devem ser.


O período de dias se estende para semanas, e as semanas viram meses, e a sua vida vira um inferno. Tem algo nessa sua cabeça que te faz esquisita. O que é? Sei lá. Só sei que você nasceu assim. Azar o seu. Mas a sua sorte – ah, a sua sorte grande, querida – é que uma mentirinha não faz mal. Vamos todos fingir que existe uma cura. Tó os seus remédios, tó o seu copo d’água, tó o seu sonho seco e cru; agora olhe pro papel manchado e diga o que você vê, por favor.


Eu olho pro papel manchado. Sabe o que eu vejo quando você me mostra o papel manchado? Eu vejo um papel manchado. Porque quero ver um papel manchado. Juro que não consigo ver nada mais do que isso: uma mancha simétrica, um borrão bem feito. Disse sobre aquelas pinturas que eu costumava fazer na pré-escola e não deu pra disfarçar o espanto. Que pinturas, que escola? Não vejo nada. Só vejo o papel manchado, e só. Quero ver, então vejo.


Você não. Você nunca está certo – você e nem o resto da humanidade, pelo que parece. Só enxergam o que está ali exposto, na cara, e mesmo assim nunca tem certeza. É a pintura que eu fazia na pré-escola? É uma borboleta? É o sorriso daquele alemão desgraçado? É o rosto daquela menina? Ah, acho que é ela mesma. Os olhos são duas fendas ao topo, e dá até pra ver o rosto chupado – olha só – dá até pra ver o rosto chupado dela com todas aquelas covinhas. É dinheiro? É, sim, acho que é dinheiro. Acho que a menina é dinheiro. É bipolaridade? É esquizofrenia? É fobia social? Sim, acho que sim; acho que é dinheiro; acho que é a menina. É toda a loucura que um ser humano pode suportar? É uma lista de remédios? É dinheiro? Talvez. Talvez seja louca mesmo – ó os dedos dela, ó a maneira como ela se coça, ó o jeito com que roça nas paredes. É dinheiro? Acho que sim. Vamos tentar, porque tenho quase – quase – certeza de que vejo dinheiro.



Eu sou um animal deturpado que você teve a sorte de conhecer. Instintos, somente instintos. Que nem o rato que nos olha do canto dessa sala. Igualzinho.


Eu vejo o contrário. Vejo você e o resto dos homens presos aos seus próprios sentidos. Que nem o rato. Ah, o rato não vê o que quer, não, não... Ele vê nossos dois vultos e pensa: será que são dois grandes predadores? Ou será que são duas grandes montanhas de comida? Será que não? Será que corro até lá ou fico aqui onde estou? Sempre em dúvida, sempre hesitante. Que nem você.


Eu não. Eu não sou um rato. Eu vou até onde quero e vejo o que quero ver. Construo o que quero, tomo quantos comprimidos quero. Entro na casa de quem quero. Amarro quem quero. Faço o que quero. Bam.


Agora é a minha vez. O que você vê no papel manchado? Por favor, me diga. Vê dinheiro? Ah, não, não dessa vez. Certo. Então o que você vê? Vê uma arma? Aquela que seu pai comprou de um vizinho da cidade dele? Seu pai a adorava, e você também: guardou a bendita debaixo do móvel da sala. Vê uma arma? Consegue ver a arma? Mesmo aqui nessa escuridão, consegue ver uma arma?


Ah, então você vê. Parece que essa foi a única vez em você teve certeza de alguma coisa, doutor. Bom para você, doutor. Bom para nós. O tratamento acabou.


polka dot.

escrito, reescrito mil vezes e enfim publicado por Yolanda



Gosto de ver a cidade se distanciar pelo retrovisor do carro. Tudo fica pequeno, pequenininho, mais do que pequenininho... Então morre.


Ele atendeu ao telefone com a voz ainda arfante – e eu só observando, os braços ainda estendidos para que ele voltasse para a nossa dança louca... Mas ele não voltou. Começou a desbotar aquele vermelho do rosto, começou a descer os olhos para o chão; aí, num gesto calmo típico do médico que era, resolveu abaixar o volume do rádio para o mínimo.

– Tá internado? – ele perguntou ao Quem Quer Que Fosse. – E agora?

E agora (isso lá era pergunta de médico)? E agora que eu abaixava os braços, sentava no sofá, esquecia da dança enquanto lembrava da morte. O pior veio depois: olhei para as barras verticais na tela do rádio, subindo e descendo no silêncio... Que nem aquelas máquinas do hospital em que ele trabalha. Subia e descia. Sei lá o que é que era, se era salsa ou o quê, mas era tudo muito animado porque subia e descia e subia e descia e subia e descia e meu Deus subia e descia meu Deus meu Deus meu Deus me ajuda eu tô ficando tonta.

A música estava acabando. Era a última faixa do CD.

– Eu já tô indo praí – colocou o telefone no gancho e correu porta afora sem cerimônia alguma.

Eu no sofá. Olhando. Respirando fundo. E agora? E agora que ele tinha ido pralá e a música já tinha terminado; as barras se abaixaram todas de uma vez. E agora? Ah, meus ouvidos: lá vinha o interminável zumbido que sucede a quietude das máquinas de hospital, atingindo os coitados dos meus ouvidos! A vogal foi se prolongando, prolongando, prolongando... E substituída por outra. Mais forte, mais aberta, mais insana. A vogal, meu Deus – que nem de gente parecia – vinha da minha própria garganta! Eu gritava porque eu sabia que aquele alguém (que eu nem sei quem era) tinha morrido; sabia que alguém tinha se distanciado da vida feito os prédios da sua rua no retrovisor do seu carro.



Ele tinha comprado um carro porque a moto dele me assustava. Não era a maneira que dirigia nem coisa assim: era a moto, somente a moto. O jeito com que ela se espreitava pelo trânsito, o jeito com que a gente fica exposta aos olhares das gentes, com que o muro se aproxima cada vez mais rápido e parece que não vai dar tempo de desviar... Que nem aquele dia, lembra?

O nosso muro. Uns anos atrás, quando a gente ficava sentado ali rabiscando e descascando a tinta, aquele costumava ser o nosso muro. Eu rabiscava, você descascava – onde é que já se viu, rabiscar muro? –, aí eu rabiscava e você descascava mais uma vez – por que isso é crime, não sabe? – e mais uma vez – nossos nomes escritos assim, num muro, não significam porcaria nenhuma; agora vê se para! E aí ele descascava o meu coração.

Estava chovendo na Rua Coronel Alguma Coisa. Eram aquelas gotas gordas de verão, incessantes. Tum tum tum no capacete. Ritmo do coração. Ritmo das barras do rádio. Salsa. O muro. A gente.

– Olha o nosso muro aí – ele gritou, tentando fazer-se ouvir na chuva. Tinha saudade na voz.

– Você me descascou aí.

Ele ficou em silêncio por um tempinho (tum tum tum, o muro chegando).

– A gente transou aí?

– Não.

– Então...

– Você me machucou.

– Eu?

– Você.

– Mas a gente transou aí?

– Eu já disse que não.

– Então do que é que você tá falando?

– Do muro. Do coração. Da pele.

– Olha, eu não entendo o que você fala. Quase nunca. Ou nunca.

(Tum tum tum, o muro; o coração; e agora os olhos).

– Você tá chorando?

(Tum tum tum).

– Desculpa, é que eu acho que ás vezes...

– Você vai me matar.

(O muro chegando; tum tum tum no coração dele nas minhas mãos).

– Por que você tá me apertando tanto?

– Você vai me matar, não vai?

– O quê?

– Você vai me matar.

(Tum tum tum, a chuva; as poças; o pneu da moto).

– Porra! Você que vai me matar! Me... solta!

– A gente vai chegar na esquina da Rua do Coronel Alguma Coisa e você vai bater no muro.

(Tum tum tum, a risada arfante dele – conseguia rir do Coronel Alguma Coisa até mesmo sem ar).

– Eu não vou te matar... Ao não ser...

– Vai sim.

– Que você não me solte...

– Você vai comigo.

– Amor... chega...

– Seu desgraçado.

– Eu...

– Desgraçado.

Então veio a vogal forte e aberta e insana que nem de gente parecia.

(Tum tum tum, meus ouvidos – parecia que o meu grito havia ficado preso no capacete e me ensurdecido).

Ele parou a moto. Não vi, meus olhos estavam bem fechados porque não queria ver a morte, mas senti. Senti as mãos dele me tirando o capacete da cabeça e me puxando para a calçada.

– Caralho! O que você tem?

– O que eu não tenho?

– O quê?

– O que você acha que eu não tenho?

– Eu acho que você tem tudo, caramba!

Fiquei observando o rosto dele. Não sabia se era uma resposta qualquer ou se era uma daquelas verdades que saem da boca sem querer.

– Inclusive uma puta duma saúde pra gritar desse jeito, se você quer saber – e voltou para a moto, capacete na mão. – Você vem ou não vem?

Eu fui.



O carro era azul. Daqueles bem vivos. Daqueles que a gente pára pra olhar, até.

– E aí, o que achou? – ele perguntou.

– De ontem?

– Do carro.

– É bonito.

O dia tinha sol. E calor. E uma sessão de cinema esperando a gente.

– Mas e de ontem, o que você achou?

– Eu achei que eu deveria ter pedido desculpas. Desculpas.

– Foi nada...

Não estava nem um pouco a fim de ir ao cinema.

– Eu achei que eu nunca te amei tanto que nem ontem, sabe?

Mas de repente eu fiquei. E fiquei sem ter o que falar também. E fiquei pensando no tum tum tum que o meu coração descascado fazia. E fiquei em silêncio. E fiquei me perguntando se aquela era uma resposta qualquer ou então uma verdade que saiu da boca dele sem querer.

Aí olhei pro espelho retrovisor.

– Você escolhe o filme, tá? – ele falou baixinho.

(Tum tum tum do prédio; zumbido da máquina do hospital).

– Tá.

– Já viu os que tão em cartaz?

(Tum tum tum de outro prédio; outro zumbido).

– Ahã.

– De qual você gosta?

(Tum tum tum de mais um prédio; mais um zumbido).

– Gosto de ver a cidade se distanciar pelo retrovisor do carro. Tudo fica pequeno, pequenininho, mais do que pequenininho... Então morre.

Olhou pra mim com um sorriso na cara.

– Cê é das birutas – e me deu um beijo na bochecha.




A gente.

escrito, reescrito mil vezes e enfim publicado por Yolanda




Preencha os campos abaixo em letra bastão e legível.

(para garantir o seu pão de cada dia, seu filho da puta).

Ela era assim mesmo. Os pais até tentavam explicar para quem estranhasse – ah, a adolescência, os hormônios, a rebeldia –, mas Lívia não tinha piedade: insistia e insistia. Afinal, ninguém era digno de negar um xingamento seu. Achava-se tão correta em todos os seusfilhosdaputa que disparava! Não que ela não fosse – na verdade, o seu maior desejo era que alguém lhe lançasse um suafilhadaputa em retorno, algo bastante improvável de acontecer em sua rígida família (possui religião?), no auge dos anos (data de nascimento, exemplo AA/BB/CCCC) de uma minúscula cidade do (nacionalidade). Todo aquele cenário era digno de sua raiva, uma raiva sem porquê que poderia ser classificada como (possui algum tipo de alergia? Especifique).

—Já acabou de usar?

—O que? – (católica não praticante, graças a Deus, se é que existe um).

—Já acabou de usar a caneta?

—A caneta é minha. – (primeiro de maio, lá pelas tantas).

—Eu sei. É que eu não trouxe a minha.

—Tá. – (brasileira não praticante).

—Eu queria saber se você poderia me emprestar quando acabasse.

—Não vai dar. – (sim, eu tenho uma porra d’uma alergia).

Silêncio. Especifique.

(Por que foi que ele parou?)

Especifique.

(Eu quero que ele me encha o saco de novo para desentalar esse meu seufilhodaputa da garganta)

Especificar!

(Vamos, vamos!)

—Olha, eu até que tenho a minha caneta. É que você tem dentes muito bonitos, só que não pára de morder essa sua caneta. Eu queria que você parasse.

Pronto. Ele havia especificado a alergia de Lívia: alergia a ela mesma. Era pior do que uma alergia comum, pois tudo estava por dentro, crescendo e crescendo, impossível de parar. Já ouviu falar dessa? Nem ele. Apesar de Paulo ser do tipo que escutava mais do que falava, essa estranha condição havia passado despercebida aos seus ouvidos aguçados.

Paulo sempre foi baixo. Era um magricela de dentes grandes que tinha vergonha da magreza, dos dentes, das roupas, dos livros que lia, dos pensamentos que pensava e do pouco que existia. Pouco, bem pouco, quase nada – só pra você ter uma idéia, a primeira vez em que foi convidado para uma festa (na vida) ocorreu lá pelos seus dezesseis anos. Foi sozinho, como sempre; seu cabelo espesso e castanho penteado de lado, os sapatos bem amarrados, a braguilha zipada, o suéter cor-de-abóbora apertado até o primeiro botão. Evidentemente, ele não sabia o que era uma festa. Ouvia mais do que falava – e o que ele ouvia era que as pessoas se divertiam muito numa festa; no entanto, nunca tivera a coragem de abrir a boca para perguntar sobre a tal diversão (nos conceitos dele: ler, assistir filmes e pensar).

Já Lívia sabia se divertir numa festa. Quando foi convidada para o aniversário de quinze anos da Prima Rica (todo mundo tem uma prima rica da qual mal se lembra o nome, afinal de contas), não hesitou em levar de penetra sua amiga Bárbara. Ambas gostavam de rock, de problemas e de cabelos. O de Lívia era curto, ralo por causa de tanta tintura (naquela festa, um ruivo desbotado) e o de Bárbara estava embolado num permanente assustador tingido de loiro. Nenhuma delas estava segura de sua opção sexual (o que acabou gerando, mais tarde, uma atração mútua entre as garotas; após algumas tentativas regadas a cerveja, cigarro e vários suafilhadaputa, a amizade terminou abruptamente). Tal paixão estava muito distante daquela noite, no buffet da festa da Prima Rica, o que explica o fato das meninas estarem se divertindo como boas amigas.

Chegaram lá pelas dez. Deixaram os presentes lá sei lá onde, encheram um prato com pães de queijo, roubaram uma cerveja, esconderam os sapatos de salto debaixo de uma mesa e, carregadas, disputaram corrida até o jardim. Ainda não fumavam, mas bebiam: tiveram de revezar a ridícula garrafinha de cerveja (conquistada com muita sorte, convenhamos). Lívia gostava do gosto de morango que o batom de Bárbara deixava no gargalo.

Opção sexual. Se aquela pergunta estivesse no formulário, ela teria um problema em tanto.

Paulo, por outro lado, conhecia muito bem sua opção sexual. Antigamente não sabia o que era, nem sabia se ao menos era alguma coisa, já que não sentia atração por ninguém. Aí veio a Menina do Vizinho (todo mundo tem pelo menos uma Menina do Vizinho na vida, afinal de contas). Era bronzeada, atlética e de cabelos compridos, daqueles que, só de olhar, dava para perceber que custaram o olho da cara. De vez em quando, ao espiá-la na academia, Paulo via a Menina do Vizinho lendo um livro volumoso enquanto corria na esteira (amor à primeira vista). A Menina do Vizinho não sabia de sua existência; no entanto, entre tantas fuxicadas aqui e ali, Paulo descobriu que a Menina do Vizinho tinha uma Irmã Menor. Não possuía a mesma beleza e nem a mesma graça, mas a Irmã Menor gostava dele por algum motivo esquisito – longe de uma atração, bem longe. Foram se aproximando, se aproximando, se aproximando... Até que a Irmã Menor o convidou para a festa de quinze anos da Menina do Vizinho. O convite foi meio assim, com um ar de “falta de opção”, mas Paulo era o único candidato disponível. Também era o único a ter feito a infeliz escolha por um suéter cor-de-abóbora – isso explicava, em parte, a sua reclusão ao canto do salão. Ouvindo mais do que escutando, como sempre.

Não que Lívia tivesse sido feliz em seu vestuário. Ao abrir o armário, deparou-se com apenas uma opção: um vestido florido.Vestiu o danado com lágrimas nos olhos; deixou que elas rolassem ao ver seus joelhos para fora, pálidos e angulosos, acompanhados por um par de ombros altos demais para a idade. Parecia uma daquelas tábuas de passar com forro estampado. Oh, céus.

Passou a hora seguinte chorando e roendo as unhas. Essa mania, a de roer as unhas, era algo que cultivava desde pequena; aí os pais a levaram para o psicólogo, depois para o psquiatra... Cortaram-lhe as unhas nos tocos. Clac! As unhas, segundo os homens de branco, seriam armas em potencial contra ela mesma. Mas o problema estava por dentro, não por fora. Ela continuava a ser uma arma em potencial contra ela mesma, seusfilhosdaputa.

Passou a roer lápis e canetas. Eles não poderiam queimar todos os lápis e canetas do mundo.

Paulo diria que sim. Tudo era possível, tudo mesmo. Era uma daquelas pessoas que tinham dificuldade em desumanizar as coisas: o cachorro de estimação, o alvo da chacota, o pernilongo que mataria e até o humano que não merecia ser chamado de humano. Era um eterno sonhador. Foi com essa confiança no mundo e nos sonhos que caminhou até o meio do salão, pegou nas mãos da Menina do Vizinho e disse:

— Quer namorar comigo? A gente pode ler juntos, você na esteira e eu no chão. Ah, e a minha mãe gosta muito de você, também.

A Menina do Vizinho deu risada. Uma risada cruel. A crueldade foi tanta que outras pessoas se juntaram a ela até formarem uma gigantesca nuvem de risadas cruéis. A nuvem tirou todo o ar de Paulo, fez encolher os pontos caprichados de seu suéter de tricô e apertou os seus sapatos tão bem apertados. Ele correu aos tropeços, passou pela primeira porta que viu e escondeu-se atrás de um arbusto. Não chorou; só ouviu. Ouviu as risadas torturantes, ouviu as risadas menos torturantes, ouvia as risadas quase não-torturantes... Até que tudo se silenciou e o mundo se tornou e um lugar seguro novamente. Respirou fundo e saiu de seu esconderijo.

A primeira coisa que viu foi uma menina. Ela tinha cabelos espetados, parecia um cotonete e ria à beça com uma amiga, que estava ao seu lado. Engraçado: não era aquela risada cruel a qual Paulo estava acostumado a ouvir. Não estava ausente de malícia, de jeito algum; mas era uma risada verdadeira, gostosa, com direito a uma charmosa frestinha entre os incisivos. A garota chegou a trocar um olhar com Paulo, mas no segundo seguinte desviou os olhos para a garrafa e virou-a de uma vez só. As amigas, então, encenaram uma briga – engataram-se, ameaçaram-se, chutaram-se – até se acabarem no chão, rindo para a lua. Para sempre.

Para sempre. Aquela imagem nunca saiu da mente de Paulo. Estava incrustada em sua retina e fazia-lhe visitas com bastante freqüência, quando toda aquela coisa de “quem sou eu? quem eu deveria ser? eu sou quem deveria?” o atingia. Ele não sabia quem era e também não era quem deveria – pois, na verdade, ele deveria ter sido que nem aquela menina da frestinha nos dentes, que ria para a lua e pouco se importava com toda aquela festa babaca. Ela estava feliz, ela tinha alguém que a fazia feliz; pronto, mais nada, fim de papo. Parecia tão segura de si mesma! Quem olhasse pensaria que ela tinha os melhores (nome do pai, nome da mãe) do mundo, a melhor (endereço residencial) do mundo e – quem sabe? – o melhor (estado civil) do mundo. Não era agora, justo agora, enquanto esperavam por uma entrevista de emprego, que aquela desconhecida-nem-tão-desconhecida-assim-da-frestinha-nos-dentes-que-roía-canetas lhe daria bola.

—Toma. – (Lídio, Linda).

—Desculpe?

—Toma aqui a caneta. – (Rua dos Bobos, número zero).

—Mas...

—Mas o que? Você não queria a caneta? – (estado civil).

—Sim, eu quero. É só que você ainda não respondeu o último campo.

Estado civil.

Lívia pensou por um instante. Deu uma olhada naquele rapaz esquisito ao seu lado que se preocupava com seus horríveis dentes espaçados; deu uma mordida na caneta, mais uma, mais outra, e, por fim, respondeu.

—Obrigado, moça.

—Não há de que – (agora, muito provavelmente, casada).


Life's too short

escrito, reescrito mil vezes e enfim publicado por Yolanda




Então chegou. O momento que ela sempre temeu, mesmo durante todos aqueles anos de faculdade, havia chegado. Faz parte da profissão, minha querida – foi com essas palavras que a doutora lhe deixou. Agora, ela estava encarregada de passar a notícia. A merda da notícia. Teria que olhar nos olhos de irmãos, filhos e netos; ah, sim, faz parte da profissão passar a merda da notícia. Eles deviam estar tão preocupados! Em meio aquele zumbido inquietante de tosses, espirros e murmúrios; rodas de macas, portas se abrindo, tac tac dos saltos comportados das enfermeiras. E enquanto isso,

a fila aumentava. Era incrível que, mesmo em um domingo à noite, a fila conseguia contornar todos os corrimões (e ainda ultrapassá-los). Sua velocidade parecia não acompanhar a lotação da loja – a cada tecla batida no computador (mais alguma coisa, senhor?), outros dois clientes se juntavam à multidão. Xingamentos, olhadelas impacientes para o relógio. Apenas alguns poucos pareciam estar distraídos. Um casal de jovens, por exemplo, agarrava-se e beijava-se em meio às sacolas abarrotadas de roupas. A situação parecia incômoda, mas eles riam à beça. Era difícil aceitar que alguém faria amor aquela noite enquanto ela ­– CPF na nota? – estaria fazendo hora extra naquela maldita

sala de aula. Quarenta alunos, rede pública. Sete deles folheavam o livro em farrapos, mostrando certo interesse; três a encaravam em expectativa; cinco permaneciam em silêncio, quase que em estado vegetativo, provavelmente se perguntando se papai viria com comida para casa aquela noite (se é que ele viria). Os outros a ignoravam. Juntos, formavam uma massa de vinte e cinco estudantes. Podia até fazer uma estimativa de quantos estariam mortos ao final do ano; quantos viriam grogues nos dias seguintes; quantas estariam grávidas (e quantos filhos elas já teriam). E quando o mês acabasse, lá estaria o seu salário – seu ridículo salário – esperando por suas contas de água, suas dívidas atrasadas e

ela continuava sem saber o que fazer. Respirou fundo, encostou-se num canto vazio do corredor do hospital e esperou. Esperou... esperou... esperou. E quando finalmente pensou ter reunido coragem, começou a chorar. Não chorou feito uma médica – chorou feito um daqueles netinhos de bochechas rosadas que a esperavam na outra sala. Como ela daria a notícia, meu Deus? (Ah, o procedimento foi um tanto delicado, um tanto arriscado; eu sinto muitíssimo, mas acabou sendo levada a óbito). E todas as lágrimas, (Mas você é médica! Você é DEUS!), e todas as perguntas (Não tem como a senhora trazer a minha vovó de volta?) e todas as outras merdas de notícias como aquela que daria dali para frente... Tudo parecia tão assustador ao ser visto daquela

loja de roupas escravocrata. E então aqueles jovens apaixonados teriam um filho, ah, sim, eles teriam; e comprariam tudo o que houvesse de bom e de melhor no mundo para ele; e pagariam uma escola particular, também, porque gostariam que o filho se tornasse um grande advogado ou um grande doutor. Só que esse filho não acabaria com a fome no mundo, nem descobriria a cura para o câncer; esse filho arranjaria um emprego medíocre de caixa que mal daria para pagar os

boletos da escola das filhas. E ainda tinha que mandar um dinheiro para o terceiro filho, aquele que morava com o pai. Mas o pai não aceitaria o dinheiro – porque ele não precisa da porcaria do seu salário de professora –, então ela choraria, porque não agüentava mais aquela

maneira. De repente, chegou a lhe ocorrer o pensamento: você é uma médica mesmo? Porque ela sabia que não era. Então todos aqueles netinhos de bochechas rosadas jogariam na sua cara

seus próprios e miseráveis débitos. Todos os sonhos, todas as ambições: lixo – acabou-se um caixa de supermercado! E só mais tarde, quando já estivesse enlouquecendo, perceberia a inegável verdade de

saudades que sentia do menino. O que é que ele devia pensar dela? Porcaria do seu salário de professora? Provavelmente, o pai devia dizer-lhe, todo dia

que

havia feito

a escolha errada.

Cancer.

escrito, reescrito mil vezes e enfim publicado por Yolanda



Eles pediram para eu escrever aqui nesse caderno. Eles, os homens de jaleco branco. É assim que eu os chamo, apesar da mamãe ter dito que eles são anjos; disse que eles vão me ajudar a voar até o céu. Foi no mesmo dia em que meu cabelo começou a cair. Eu chorei, mas a mamãe disse que é para que as minhas asas nasçam e eu possa voar. Elas ainda não nasceram. É por isso que eu odeio esse lugar.


A única coisa que eu gosto daqui é a Ana. Ela é melhor que a mamãe, porque a mamãe só me visita uma vez por mês, e a Ana me visita toda noite. Diz que entra pelo vento, pelas frestas da janela. E eu acredito na Ana. A gente brinca, a gente conversa, a gente faz tudo junto. Ontem a gente desenhou um monte de coisas nas paredes. Eu desenhei minha mamãe; ela desenhou um menino e uma menina se beijando. Pensei que fossem os papais dela, mas a Ana disse que éramos nós, juntos, depois que eu saísse daqui. Eu até achei meio engraçado, porque o boneco tinha cabelo e eu não tenho. Mas a Ana, ela sim, tem cabelo: é castanho, comprido e encaracolado. Ela disse que é porque as asas dela já nasceram – por isso ela não precisa morar no hospital que nem eu. Então eu chorei, porque já faz anos que eu estou aqui e as minhas asas não crescem, e a única coisa que eu quero é poder voar como a Ana. Mas ela disse que eu não preciso me preocupar, que elas virão um dia. E aí ela me beijou. Que nem no desenho.


Hoje de manhã os homens de jaleco branco vieram aqui. Olharam para os desenhos com caras fechadas, saíram; logo voltaram com outro homem de jaleco branco. Eu o conheço: é o homem das perguntas. Às vezes ele aparece no meu quarto e começa a me perguntar um monte de coisas estranhas, e é por isso que odeio o homem das perguntas. Mas hoje ele foi muito bonzinho comigo: me deu este caderno, disse que era um presente. Também disse que era para que eu escrevesse ou desenhasse nele tudo o que eu sentisse. É isso o que eu estou fazendo agora. É legal.


Ah, a Ana chegou. Ela adorou o caderno, as folhas coloridas e tudo mais. Ela só não gostou do que está escrito nas primeiras páginas. Disse que saber que eu estou triste a deixa triste; mas, que se eu quero tanto assim voar como ela, eu não preciso esperar minhas asas, que ela tem uma idéia melhor. Aí ela arrancou uma página e fez um avião. Pediu para que eu subisse nele. Eu a convidei para vir junto – respondeu que não, que iria na frente para me guiar. Então ela pulou pela janela.


Eu estou com muito medo da altura, do asfalto lá embaixo, do vento; mas agora tenho que pular. E eu acredito na Ana!


O guarda-chuva.

escrito, reescrito mil vezes e enfim publicado por Yolanda





Ela parou em frente ao ponto de ônibus vazio, cruzou os braços e olhou para os faróis do veículo ao final da rua. Ele também estava vazio, sem motorista nem passageiro. O que importava era que a lata velha ainda se mexia – lentamente, mas se mexia. Logo, logo, estaria lá para buscá-la.


─ É um casaco muito bonito este o da senhorita – uma voz disse ao seu lado. A garota virou-se, surpresa, mas não viu gente alguma. Havia apenas um guarda chuva negro ali, pairando aberto ao seu lado.


─ Obrigada – ela disse ao guarda-chuva, e voltou os olhos para os dois pontinhos vermelhos a brilharem por entre a névoa. Quase no mesmo instante, uma sombra cobriu seu campo de visão: era o guarda-chuva, inclinado como se para protegê-la de uma tempestade.


─ Não está chovendo – ela observou, calma.


─ Está, sim.


A garota olhou para o alto. O céu permanecia nublado como todos os dias, em tons de verde que variavam do musgo ao esgoto.


─ Não está chovendo – ela repetiu.


─ É que a senhorita não consegue ver.


Ela balançou a cabeça, impaciente.


─ De qualquer forma, o senhor não precisa me cobrir. Eu não consigo enxergar o ônibus assim!


─ Mas a senhorita não pode se molhar, também – advertiu o guarda-chuva. ─ Uma chuva dessas mataria a senhorita.


─ Eu tenho meu casaco.


─ Temo que este belo casaco não proteja a senhorita do temporal que está por vir... Ao não ser que troquemos.


A garota se deu por vencida: suspirando, despiu seu grosso sobretudo e entregou às mãos invisíveis do sujeito. Este, por sua vez, ofereceu-a o cabo do guarda-chuva que trazia.


─ É macio – disse ele, agora nada mais do que um casaco marrom e flutuante. A garota, no entanto, tremia de frio, pois não havia nada que a vestisse por debaixo daquela peça: apenas a pele do corpo, azul-pálida sobre sua delicadeza de menina. Ainda assim, estava satisfeita com a troca. Conseguia manejar o guarda-chuva de modo que a visão do ônibus não fosse prejudicada. E, para sua alegria, ele estava chegando.


A garota deu o primeiro passo no asfalto. A névoa a cobriu quase completamente, deixando a mostra apenas a cúpula do guarda-chuva que carregava. Sendo assim, caminhou como se fosse atravessar a rua, lerda e distraída, de pouquinho em pouquinho. A primeira buzina foi soada – ela não hesitou: continuou a andar em direção ao ônibus. Houve uma segunda, uma terceira, uma quarta, longa e aguda. Neste instante, o carro desgovernado a empurrou para o chão e a amassou com suas rodas gigantes, deixando para trás seus ossos quebrados. Ela sorriu: havia cumprido sua missão. E havia a cumprido sorrindo.


Foi quando percebeu que ainda não estava morta.


Devagar, ergueu-se do chão. Percebeu que não sentia dor. Não havia uma gota sequer de sangue manchando a rua, também, nem vestígios de seu corpo – o que era estranho, já que ela sentia que não estava dentro de seu corpo. Apenas as marcas dos pneus ficaram ali gravadas, as únicas testemunhas do acidente.


Então, por entre a névoa, ela olhou para o ponto de ônibus na calçada. Lá havia uma garota pálida, de braços cruzados, vestindo um aconchegante sobretudo de lã escura. Ambas se encararam.


─ É um casaco muito bonito este que a senhorita tinha ─ disse a menina da calçada. Sorriu, mergulhou as mãos no bolso e saiu andando tranquilamente pela cidade nevoenta. Ela a observou desaparecer numa esquina escura ─ de repente, alguma coisa riscou o ar. Era a chuva. E ela continuou ali, imóvel, carregando o guarda-chuva negro que pairava aberto sobre o que antes fora sua cabeça. Para sempre.